Pequeno texto
O homem acordou, nu e deitado no frio asfalto, no meio da madrugada. Paulo - era assim que se chamava? - tinha uma pílula em mãos e um grande vazio na sua mente. Levantou-se, com flashes de memória vindo difusamente. Imagens de formaturas, mortes, homens encapuzados entrando em sua casa à noite…
Todas essas cenas, aparecendo paralelamente em sua mente, foram substituídas por um novo flash - um texto, talvez uma reportagem, que começava com um sumário: “Uma série de experimentos conduzidos por um grupo de pesquisadores de São Paulo está ampliando a perspectiva de que, no futuro, seja possível criar uma droga do esquecimento”.
Agora as coisas começavam a fazer sentido para Paulo, conforme os flashes mostravam mais e mais de sua vida. Alguém o drogara! Começou a se perguntar por que alguém gostaria de apagar a memória de um… de um… seja lá o que fosse. Lembrou-se de ter sido chamado de doutor. Seria Paulo um advogado? Um médico?
Tais perguntas teriam de ser respondidas depois. Não sabia se ainda estava sendo perseguido. Olhou ao redor, viu roupas limpas dobradas e as vestiu. Pareciam roupas de alguém fugindo da internação, mas bastariam. Correu pelas ruas vazias, rezando para não haver ninguém em seu encalço.
Então ele viu, ao longe, um homem de terno, que o fitava sem expressão. Paulo reconhecia aquela cara de algum lugar; só não conseguia lembrar de onde. Mas saiu correndo em direção ao conhecido desconhecido, achando que este talvez o ajudasse.
Paulo correu mais do que jamais havia feito antes. O ácido lático já estava danificando sua musculatura, mas ele ignorou a dor. E foi detido como que por uma grande muralha invisível na sua frente, que o derrubou ao chão, sem sentidos. Ao menos, segundos antes de desmaiar, reconhecera o homem - era Broetto, um de seus colegas de faculdade (Medicina; lembrara pouco antes) -, que agora trabalhava para o governo.
Do outro lado da barreira de vidro, o agente secreto Broetto olhava o seu colega desmaiar com o impacto. Era uma pena que ele estivesse preso, mas o doutor Paulo planejava vender no mercado negro a sua droga do esquecimento.
Isso ameaçaria a segurança nacional, então Broetto deveria impedir o doutor de vender ou o remédio ou o processo de fabricação deste - e o que seria melhor para tal fim que o fazer esquecer de tudo? Além disso, o prisioneiro recebia uma ração de LSD, para não perceber que estava na verdade em uma cela fria.
O agente terminou seu relatório e foi embora. A dosagem teria de subir.

9 Maio, 2008 em 9:45 pm
Ácido lático é… bom, vamos dizer que lembra tendências um tanto “peculiares” de certa escola literária.
Mas aposto que você tirou uma nota maior que a prevista, ficou bom pacas, acho que o maior problema é o limíte de espaço da redação, mas nunca se sabe.