Uma visão racional da Guerra: A abordagem de Clausewitz

Há algum tempo, tratei sobre a modelagem jominiana da guerra, uma primeira tentativa de descrever esta por meio de princípios universais. O trabalho de Jomini nesse sentido iniciou-se já em 1804, o que lhe rendeu a atenção do Marechal Ney e mesmo do próprio Bonaparte. No entanto, antes que sua magnum opus, o Précis de l’Art de la Guerre, fosse publicada, surgiu uma outra teoria da guerra, que, ao contrário da visão conciliadora de Jomini, era vastamente diferente do senso formado. Seu autor era o general prussiano Carl von Clausewitz.

Clausewitz nasceu em 1780 e entrou para a vida militar aos doze anos, tendo servido em um dos regimentos prussianos tão bem descritos por John Keegan em seu livro Uma História da Guerra. Ainda jovem, acompanhou os exércitos prussianos em sua invasão à França, quando teve o primeiro contato com o fervor em combate dos revolucionários. Aos 21 anos, entrou para a Kriegsakademie, a escola militar de Berlim, onde estudou Kant e foi pupilo do general Scharnhorst, futuro chefe de estado-maior do exército da Prússia.

Durante a desastrosa campanha que levou à derrota dupla de Jena-Auerstedt, Clausewitz foi feito prisioneiro dos franceses. Libertado, tomou parte na reconstrução da Prússia após a Guerra da Quarta Coalizão, mas quando Napoleão declarou guerra à Rússia – forçando uma Prússia submissa a fazer o mesmo -, Carl von Clausewitz se juntou à Legião Russo-Germânica, testemunhando a primeira grande derrota dos exércitos napoleônicos. Enquanto esteve sob o serviço do Czar, ajudou a negociar a formação de uma aliança entre Prússia, Reino Unido e Rússia; tal coalizão levou à derrota de Bonaparte e posterior exílio.

Depois das Guerras Napoleônicas, Clausewitz foi promovido a Major-General e nomeado diretor da Kriegsakademie, que chefiou até 1830; um de seus alunos nesse período foi Helmut von Moltke, lendário comandante responsável pela vitória na Guerra Franco-Prussiana. No período entre 1818 e 1830, começou suas reflexões sobre a guerra, interrompidas em 1831 por sua morte em meio a uma epidemia de cólera. Seu livro, Vom Kriege, foi publicado postumamente por sua esposa.

Tal lançamento sem uma revisão final por parte do autor fez com que surgissem muitas interpretações diferentes do autor. Ao mesmo tempo, Jomini e seus muitos discípulos tentaram conciliar as teses de Clausewitz com seus próprios princípios e máximas, o que levou a uma interpretação superficial. Ao rotularem a obra de Clausewitz como uma “filosofia da guerra” enquanto os derivados jominianos seriam “teóricos”, garantiu-se que a obra do general prussiano só teria suas conseqüências plenamente apreciadas no meio do século XX, com o surgimento do conceito da MAD (Destruição Mútua Assegurada).

A diferença de termos, apesar de oriunda de uma tentativa de negar o valor prático da teoria clausewitziana, expressa o quão distantes são as abordagens. Jomini tentou, através de uma análise histórica, resumir os princípios militares então vigentes em uma série de máximas suficientemente vagas para não serem desmentidas por qualquer mudança mas ainda assim úteis. Clausewitz, um homem do Iluminismo inspirado por filósofos como Kant, adotou uma abordagem dialética para explicar o que é a guerra.

De um lado, ele define a guerra como uma ferramenta política, gerando a célebre frase “A guerra é uma continuação da política por outros meios” (que, no original, dizia “com a entremistura de outros meios”). A antítese dessa idéia é a visão de que a guerra é puramente um duelo entre duas vontades – uma “luta-livre”, para uma analogia mais apropriada. Ao analisar ambas as idéias, chega-se a síntese que constitui um dos principais pontos da abordagem de Clausewitz: a guerra nunca é ilimitada, sendo sempre restrita por objetivos políticos e outros; no entanto, o nível de comprometimento é fator que influencia na vitória ou derrota do conflito.

O objetivo em uma guerra seria desarmar o oponente, ou seja, destruir efetivamente a capacidade do oponente de guerrear. Aí é que entra o comprometimento em uma guerra. Quanto mais determinado o inimigo, mais difícil é de removê-lo do conflito. Isso fica visível na análise que Domício Proença Júnior et al. fizeram em seu Guia de Estudos Estratégicos sobre a guerrilha. Tomemos o exemplo da Guerra do Vietnã. É inegável que os Estados Unidos dispunham de maior capacidade militar que o NVA e o Vietcong, mesmo que tomemos apenas a fração dos recursos militares estadunidenses efetivamente comprometidos com a proxy war. No entanto, por estarem lutando apenas por razões políticas e influenciados pelas informações e listas de mortos transmitidas pela mídia, estavam dispostos a arriscar bem menos em um conflito do que seus inimigos, que, além de lutarem em seu próprio território, combatiam por um ideal.

Uma vez que ainda não finalizei a leitura de Da Guerra, prefiro não continuar com uma análise mais profunda da teoria clausewitziana, para não ficar apenas discutindo sobre a interpretação que o autor X ou Y tem da obra de Clausewitz. Muitos, como os autores do Guia de Estudos Estratégicos, defendem que a teoria construída sobre os alicerces do Vom Kriege ainda é plenamente válida nos dias de hoje e consegue explicar mesmo as mudanças sofridas ultimamente pelo cenário militar. Outros, como John Keegan, defendem que ela é ou incompleta ou não mais válida.

Um dos principais pontos alegados sobre a suposta incompletude da obra de Clausewitz estaria no fato de que ela é permeada demais pelo modo ocidental de guerrear. Realmente, na cultura ocidental, a guerra subordina-se aos interesses políticos, assim como a religião também se curva perante estes. Mas isso não é sempre válido. Tomemos o exemplo do Japão, em que as formas culturais, muito mais do que as necessidades políticas, modelaram a forma de guerrear. O xogunato Tokugawa, logo após vencer as terríveis guerras civis no século XVI, conseguiu fazer com que o uso de armas de fogo no Japão fosse efetivamente eliminado até a chegada do Comodoro Perry, já na década de 1850. Ao fazê-lo, Tokugawa Ieyasu deu uma sobrevida de três séculos aos samurais e ao modo de vida já institucionalizado, coisa que não aconteceu na Europa.

Para outros, a teoria de Clausewitz se tornou ultrapassada com o início da Guerra Fria. As superpotências da segunda metade do século XX atingiram aquilo que é o objetivo supremo de um Estado clausewitziano: destruir uma imagem especular de si mesmo. Com o advento das armas nucleares, elevava-se o preço de uma guerra de tal modo que apenas formas limitadas de combate seriam possíveis sem a destruição do mundo. Isso não torna a teoria de todo descartável, uma vez que, como visto, ela ainda consegue explicar fenômeos como o terrorismo, mas mostra que Clausewitz não mais é suficiente para explicar a atual forma da guerra.

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10 respostas para Uma visão racional da Guerra: A abordagem de Clausewitz

  1. Murilo Romulo disse:

    Sensacional o texto. Tenho muito que aprender ainda a respeito de estratégia de guerra, mas posso afirmar que está ótimo. Nesses últimos dias pude ver como muitos não tem a mínima noção de estratégia, né Marco?

  2. […] de posts sobre assuntos militares, iniciando pelos dois grandes teóricos do século XIX: Jomini e Clausewitz. Desde o tempo desses autores, no entanto, houve mudanças muito maiores do que aquelas provocadas […]

  3. samuel ramos disse:

    Excelente texto, ainda hoje se copia a hierarquia criada por clausewitz para comandar exercitos e empresas.

  4. […] a ruptura com o que veio antes foi tão grande que foram necessários autores do nível de Jomini e Clausewitz para preencher o vazio conceitual de uma classe militar forçada a encarar uma série de mudanças […]

  5. Fernando disse:

    Muito bom o texto, gosto muito do tema, e estou interessado em desenvolver um projeto de pesquisa sobre taticas de guerra, pensamentos de guerra, pensadores…
    enfim, gostaria muito da sua ajuda, se voce pudesse me fornecer alguma bibliografia basica, ou até mesmo mais complexa, via e mail, eu agradeceria muito!
    muito obrigado e novamente, belo texto!

  6. […] a ser discutida por Claus von Clausewitz, que considerava a guerra como ferramenta política. O objetivo em uma guerra seria desarmar o oponente, ou seja, destruir efetivamente a capacidade do o…. Para tanto, a estratégia aplica-se ao campo militar, mas a “grande estratégia” significa […]

  7. Rodrigo Freire disse:

    Os exércitos da alemanha nazista de Hitler tinham várias operações que eram excutadas conforme os acontecimentos de guerra se apresentavam. Uma delas previa a destruição de documentos e acervos técnicos no casa da invasão de Berlim pelos inimigos, esta operação se chamou -OPERAÇÃO CLAUSEWITZ. Qual a ligação entre a operação nazista e a obra de Clausewitz.

  8. Dércio disse:

    Incrivel, grande abordagem…boa recomendacao aos demais leitores.

  9. […] a ruptura com o que veio antes foi tão grande que foram necessários autores do nível de Jomini e Clausewitz para preencher o vazio conceitual de uma classe militar forçada a encarar uma série de mudanças […]

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