Serviço Militar Obrigatório: Uma história

Depois de uns breves desvios, finalmente começo a falar sobre o tema no qual eu pretendia me focar ao ser chamado para participar dessa joç do blog: Militarismo. Bem, o Serviço Militar Obrigatório é um assunto que preocupa muito as pessoas de minha idade, já prestes a servir, e que possivelmente já foi fonte de muito incômodo para os leitores mais velhos (OK, estou sendo bem esquizofrênico otimista ao me dirigir a esses). Porém, por mais que ele seja uma preocupação de muitos jovens prestes a prestar o vestibular (exceto, claro, os futuros iteanos que passem de primeira), as pessoas em geral conhecem muito pouco sobre a conscrição e suas conseqüências. Por isso farei essa pequena duologia (isso existe?) de posts.

A conscrição surgiu, na forma como a conhecemos, durante a Revolução Francesa. A nascente República, sendo ameaçada por inimigos dentro e fora de suas fronteiras, e sem condições de montar um novo exército profissional (visto que o antigo, segundo John Keegan, eminente historiador militar, “era politicamente suspeito e, além disso, tinha perdido muitos de seus oficiais treinados”) antes de ser subjugada pelos absolutistas, recorreu ao expediente de tornar “cada homem um soldado”; uma tentativa anterior de deixar o serviço militar apenas para os voluntários, a Guarda Nacional, possuía efetivo insuficiente para ser efetiva na defesa nacional. De tal modo, a República Francesa, já em 1794, conseguiu mobilizar um impressionante total de 1 milhão e 169 mil homens em armas, um exército imenso para os padrões da época, garantindo a sua sobrevivência e formando a base do exército que permitiu a Napoleão sua conquista da Europa continental.

Antes disso, a idéia de conscrição já era defendida por alguns teóricos, o mais notável deles sendo o grande Nicolau Maquiavel, crítico dos sistemas adotados pela maioria das repúblicas italianas, de exército profissional e de uso de mercenários, que, sem controle ou pagamentos generosos e regulares, acabavam tomando o poder das cidades que os contrataram, como Munzio Sforza e Braccio da Montone, condottieri italianos que se tornaram figuras políticas importantes na Itália renascentista.

Mas o principal teórico da conscrição foi o pai da teoria militar ocidental moderna, Carl von Clausewitz, militar prussiano que, impressionado com o poder militar gerado a partir da crença francesa na causa republicana, buscava uma forma de mobilizar o “exército de soldados-cidadãos” sem efetuar na monárquica Prússia as profundas mudanças sociais causadas pela Revolução Francesa, ele (ou seus intérpretes/discípulos) encontrou no nacionalismo uma forma de motivar a população masculina adulta e tornar a conscrição aceitável, permitindo a mobilização rápida de grandes quantidades de tropas. Isso teve um grande impacto na Europa do século XIX. O serviço militar passou a ser visto não totalmente como um dever, mas sim como uma forma de fazer merecer a cidadania. A idéia da relação profunda entre cidadania e serviço militar se tornou tão arraigada que, mesmo nos países onde ele não era obrigatório, grandes números de voluntários se apresentavam para cumprir seu “dever cívico”.

Tal integração entre sociedade e exército fez com que a famosa tradução errônea de Clausewitz, “a guerra é uma continuação da política por outros meios”, fosse totalmente invertida, e a política – e, com ela, toda a sociedade – passasse a ser um prolongamento do espírito belicista. Isso fica evidente na carnificina que foi a Primeira Guerra Mundial, que resultou no massacre de uma geração de jovens, tanto das camadas mais pobres, como das elites universitárias (muitos alunos das grandes universidades britânicas foram mortos em combate, e o mesmo aconteceu com a juventude burguesa francesa e alemã).

Após ambas as guerras mundiais, muitos países, visando evitar novas baixas tão extensas, quiseram reduzir seu exércitos e torná-lo mais profissionalizado e tecnologicamente preparado, processo que resultou na forma altamente impessoal de guerra praticada atualmente pelas grandes potências, com os Estados Unidos sendo um caso extremo. A epítome desse processo de impersonalização (isso existe?) da guerra foi o desenvolvimento, ainda durante a Segunda Guerra Mundial (e cujo aprimoramento foi fator importantíssimo da Guerra Fria), das armas nucleares.

Muitos países, no entanto, ainda mantém a conscrição como fonte maior de seu poder militar, seja por não possuirem os recursos técnicos necessários para poder se dar ao luxo de reduzir seu exército a um pequeno corpo profissional ou por possuírem necessidades de defesa para as quais o uso de um exército totalmente profissional seria dispendioso demais.

Seria esse o caso do Brasil? Vejamos no próximo post.

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3 respostas para Serviço Militar Obrigatório: Uma história

  1. ALELUIA O POST SAIU!!😛
    Agora, o próximo também demora duas semanas, ô não?

  2. […] gerada pela Era Napoleônica no meio militar foi a difusão da conscrição, que já foi assunto de um dos meus primeiros posts. Enquanto antes os exércitos, na maior parte dos casos, eram relativamente pequenos e com tempos […]

  3. […] gerada pela Era Napoleônica no meio militar foi a difusão da conscrição, que já foi assunto de um dos meus primeiros posts. Enquanto antes os exércitos, na maior parte dos casos, eram relativamente pequenos e com tempos […]

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