O McTerrorismo

Em um e-group do qual participo, começou uma discussão sobre guerra ilimitada e a definição do que é, de fato, terrorismo. Após algumas opiniões distintas, um pouco de desconstrução do meu pedantismo (que não existia há três anos, mas atingiu níveis alarmantes), e algumas constatações, fiquei sabendo pelo Guy – meu atual “tutor” de Estudos Estratégicos – de um fenômeno relativamente novo no campo das ameaças à civilização judaico-cristã-ocidental, algo que, por desconhecimento de termos técnicos, vou chamar de “McTerrorismo”.

Como uma parte considerável dos meus não-leitores sabe, a unidade básica de um grupo terrorista é a célula, um grupo capaz de operar de forma relativamente independente; o vínculo entre as células é mínimo, através apenas de uns poucos elementos de coordenação, para garantir que uma célula possa continuar operando caso outras sejam desbaratadas. Tal modelo de operação torna muito difícil eliminar um grupo desses, exigindo um grande trabalho dos setores de inteligência (ou informações, como preferem alguns puristas) para garantir que todas as células sejam eliminadas. Mas a infiltração de células no país-alvo continuava sendo trabalhosa.

Outra característica de organizações terroristas (além, é claro, da total incapacidade mesmo de especialistas em defini-las sem excluir grupos notadamente terroristas ou incluir grupos que não são considerados como tal) é a sua elevada mutabilidade. Portanto, não fiquei surpreso ao ficar sabendo de uma mudança no modelo operacional de tais organizações.

Agora não só as unidades básicas dos grupos terroristas têm pouca interconexão como não precisam ser infiltradas no “destino”: podem ser simplesmente criadas como “filiais”, requisitando a “fusão” com algum grupo terrorista e recebendo know-how para suas operações. Ou seja, eu posso, tecnicamente, fundar a “Brigada dos Mártires Bakka Lakka Dakka Muhhamed Jihad do Derkaderkastão” e receber treinamento para derrubar o Grande Satã, o que simplifica muito o processo de criação de células operacionais.

Tal evolução foi obviamente possibilitada pela evolução nos meios de comunicação e pela globalização, que facilitaram muito a difusão de ideologias, a reunião de loucos pessoas dispostas e a obtenção de armamento.

O que só me faz ter uma crença maior na minha hipótese de que o terrorismo é o “vírus” da democracia. Um regime autoritário não tem tantos problemas quanto um governo democrático para enfrentar o terrorismo, uma vez que tem a liberdade para definir quem são os seus inimigos – mesmo que estes sejam praticamente todos, como no caso de Stalin e Pol Pot. Mas isso não é justificativa suficiente para uma ditadura, seja ela militar, “do proletariado” ou de qualquer outro tipo. O preço da liberdade pode ser a eterna vigilância. Mas quem vigia os vigilantes?

“Democracy is nothing but the Tyranny of Majorities, the most abominable tyranny of all, for it is not based on the authority of a religion, not upon the nobility of a race, not on the merits of talents and of riches. It merely rests upon numbers and hides behind the name of the people.” Proudhon

“Democracy is the worst form of government except for all those other forms that have been tried from time to time.” Winston Churchill

4 respostas para O McTerrorismo

  1. Yama disse:

    Não sei em que termos as discussões estavam sendo feitas…

    But.. já sou discrente em guerras ilimitadas, especialmente se for se considerar como tal a guerra estadunidense contra o terrorismo.

    Não acredito mesmo que ela chegará a ser ilimitada… pra mim a prostração dos EUA é mais provável que a do terrorismo nessa guerra.

    O terrorismo não é simplesmente invisível. Nunca haverá um conceito amplamente aceitável pra ele, na minha opinião. Depois de décadas tentando combater o relativismo cultural e religioso, os EUA corroboraram a legitimidade do relativismo internacionalmente.

    Baseando-se no argumento da ausência de guerra entre países democráticos na história, sou guiado a pensar que grupos “terroristas” agem como estados, sem ter a legitimidade weberiana de faze-lo.

    Discordo do termo vírus da democracia. Acho que se trata mais de um erro de programação. De ausência de poder sobre o sistema. E não de um fator “infiltrante”.
    Isso é negativo?

    prefiro acreditar que é esse tipo de bug que melhorará o sistema.

    Quanto a vigilância… Nosso “grande irmão” que o diga. Foda-se o sistema. Se a liberdade se torna um problema pro sistema é porque o problema está no sistema e não na liberdade.

    você preza pelo quê? pelo sistema, ou pela liberdade?

    I’ve made my choice. Eu escolhi me excluir do nacionalismo alienante =P

    Tá, viajei, mas uma coisa puxa a outra.

    See ya.

  2. Marco Almada disse:

    O termo “vírus” surgiu meio que espontaneamente na minha cabeça (o texto saiu durante uma aula de biologia, talvez seja isso) e talvez não seja o mais adequado. Mas, em certos pontos, o terrorismo e tais seres (vivos?) se aproximam.

    O Terrorismo, assim como um vírus, é uma atividade sempre mutante, conseguindo superar quaisquer meios ativos de tentar contê-lo; a forma mais segura de lidar com ambos é impedindo que se enraízem – no caso de um vírus, com tratamento; no caso do terrorismo, se eu soubesse a resposta, estaria feito -, e ambos podem ser potencialmente letais.

    Um exemplo disso pode ser visto no Patriot Act criado pelos EUA após o 11 de Setembro, com grandes restrições às liberdades, e nos planos de diversos países para autorizar a polícia a instalar câmaras para vigiar suspeitos sem precisar solicitar um mandato a cada caso.

    Um ponto importante que você levantou é a inexistência de uma definição objetiva e aceita de terrorismo. As definições mais amplas incomodam boa parte dos países, enquanto as definições mais estritas acabam sendo, na prática, enumeração dos grupos que um país ou outro julgam serem “do mal”.

    A democracia é, como qualquer outra forma de governo, uma tirania. Uma ditadura da maioria, mas ainda sim é a imposição das vontades de um grupo sobre o resto, geralmente desprezado por ser minoritário.

    Como no seu caso, minha escolha não é pelo sistema, seja ele democrático, socialista, autocrático ou de qualquer outra forma imaginável. Mas sou forçado a admitir que, havendo necessidade da existência de um Estado, a democracia é a opção menos ruim entre as anteriores.

  3. Yama disse:

    Discordo que a democracia seja a tirania da maioria. A prática dela pode até ser, mas justamente porque existe um déficit democrático. Gosto de concordar com as coisas no campo das idéias.

    Numa democracia grupo algum deveria ser desrespeitado, porque perante a democracia eles nem deveriam exisitir. Buscar formas que beneficiam a maioria e tentar tornar justa a distribuição de poder muito antes de poder vir a ser um ataque as minorias.

    Pega-se o que é princípio. Se você é minoria é porque a democracia te deu a possibilidade de não concordar com algo. É assim que penso.

    De qualquer maneira, excelente texto. Uma discussão definitivamente válida.

    ps: quando falei “você” não pretendia me referir diretamente a você, e sim a qualquer que lê-se. Suou grosseiro =P

  4. Marco Almada disse:

    Imaginei, mas tenho o irritante hábito de responder perguntas retóricas ^^

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