Religião

Fazendo um post subjetivo do tipo que não faço há algum tempo, vou falar um pouco sobre minha visão com relação a religiões. Poucas pessoas imaginam ou aceitam, mas sou um cristão não-afiliado a nenhuma vertente em específico (e tão devoto quanto Gregório de Matos Guerra). Mas, como aqueles que me conhecem – ou ao menos já leram um texto meu – podem atestar, tento evitar ao máximo que isso interfira em meus textos ou minhas decisões com repercussões para as outras pessoas.

Pode parecer estranho, pois são poucas as religiões que não valorizam o proselitismo, e mesmo estas costumam exigir de seus devotos um código moral rígido. No entanto, muitas vezes as atitudes das pessoas que se dizem religiosas acabam contrariando os preceitos que estas apregoam. Um exemplo disso é a questão do aborto, tão criticado por instituições religiosas. A criança, na concepção cristã, é livre de pecado. Então, se a vida é algo além de interações químicas a nível molecular e celular, por que se importar se uma criança deixa de nascer em um lar em que ela possivelmente não seria bem tratada?

Existem diversas maneiras de lidar com isso. Uma, que particularmente me irrita, é a dos fanáticos religiosos. Tudo que vai contra a sua interpretação favorita de seja qual for o livro sagrado (ou a interpretação do pastor/padre/imã, já que fanáticos geralmente são animais de rebanho) está errado, é pecado e vai garantir um lugar para você no mármore do Inferno do lado do Tinhoso e de Saddam Hussein. A não ser, claro, que sejam coisas que eles tenham feitos. Nesse caso, Deus Vult.

É essa forma como a minha madrasta, para quem Damien merece ser canonizado se comparado a mim, uma fanática religiosa típica, age. Outros lidam com isso através de um ciclo eterno de culpa e castração mental. Um terceiro grupo acaba abraçando o ateísmo puramente por este motivo (e não por razões mais profundas): não aceitar nenhuma limitação. Já a minha visão é um pouco diferente, se baseando em dois preceitos aparentemente paradoxais:

1º: Eu acredito em um conjunto rígido de preceitos morais.

2º: Eu violo boa parte deles, às vezes inconscientemente, às vezes deliberadamente.

Aparentemente, é quase a mesma coisa da primeira forma descrita. Mas falta um passo: a relativização do caráter errôneo dos atos. Não é porque eu faço algo que vou deixar de considerar essa atitude como errada. Assim como Richelieu, com seu conceito de raison d’État, violou grandemente os princípios em que acreditava, como príncipe da Igreja, todas as pessoas acabam tendo de fazer (ou optando por fazer) coisas erradas. A única diferença é que, crendo em Deus, acredito que haverá um preço a pagar depois. Inversamente, o fato de se crer em um código moral absoluto não significa que você está certo, como pode atestar Rorschach.

Algum dia falo sobre as tentativas de se conciliar uma visão religiosa com o ethos científicos. I’ve had enough for one day.

4 respostas para Religião

  1. Jake Dust disse:

    Ah, preciso confessar que, por mais assustador que seja, também possuo meu código moral, embora você saiba muito bem disso. Claro, é BEM alienígena para pessoas normais, com os meus conceitos deturpados e o foco em algo desconhecido.

    Descarto a parte de culpa e arrependimento, ações chatas e sem resultado. “Life’s a laugh, death’s a joke, it’s true” (contrações me lembram da Faye). Acabo incorporando irracionalidades como “honra” e “lealdade”, como novamente você bem conhece. Sou um antiquado conservador, afinal, nem todos precisam ser neo-pagãos para arranjar diversão.

  2. Murilo Romulo disse:

    Sigo a mesma linha do Fábio. É algo extremamente complicado lidar com fanáticos religiosos. Acho que tudo, moderadamente, não representa nenhum problema. Todavia, acredito que algum exagero pode ter conseqüências negativas.
    No mais, ótimo texto!

  3. Bia Miscow disse:

    A questão do proselitismo é muito complicada. Às vezes tentamos convencer alguém de que o que pensamos é certo, sem perceber, acabamos gerando conflito e até quebrando com o nosso código moral. Existe um trecho da Bíblia que diz que os sábios sabem ouvir e não se inflamam quando discordam de algo. Acreditando ou não neste livro, é algo verdadeiro, na minha humilde opinião. Ser sábio é saber ouvir e entender quem está do lado, concordando ou não com seus pensamentos.

    Freqüento uma igreja, conheço sobre Bíblia e tudo o mais e o que mais me irrita é a hipocrisia entre as pessoas. É preciso viver aquilo que se prega, levar a sério aquilo que acreditamos como verdade e respeitar as opiniões do próximo. É fácil ser uma boa pessoa dentro de uma igreja, uma vez por semana. O grande desafio é viver todos os dias aquilo que dizemos guiar as nossas vidas.

  4. Creio que você tenha resumido perfeitamente a situação que originou o meu post, Bia.

    É muito difícil seguir o tempo todo um conjunto de preceitos. Mas, se aquilo que fazemos acaba diferindo tanto daquilo em que dizemos acreditar, então trata-se de uma crença no mínimo hipócrita. E essa hipocrisia é um problema. A partir do momento em que se professa um conjunto de crenças, deve-se agir dentro dos limites deste.

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