Gerações

Diferenças entre gerações são óbvias e quase absurdas. A diferença entre avós e pais é gigante, a distância entre pais e nós é ainda maior. Cada um diz sofrer mais que o outro, diz que teve uma infância muito mais dura, teve que fazer isso, teve que fazer aquilo.

No caso dos bisavós, alguns têm a história da imigração. Eles vieram para cá, tiveram que se estabelecer, que aprender o idioma, tiveram que criar a família toda. A infância deles foi uma infância relativamente feliz em alguma aldeia italiana ou japonesa, alguma cidadezinha alemã, russa ou polonesa. Depois, vieram para cá, etc. Se não vieram para cá, tiveram dificuldades pois os pais vieram, tiveram uma dificuldade tremenda, uma infância paupérrima pedindo esmolas. OK.

Depois, a próxima geração tinha esses pais, pobres, imigrantes, lutando por uma vida melhor. Começaram a trabalhar aos 14 anos, andavam duas milhas para chegar à padaria mais próxima, moravam em um sitiozinho tranqüilo cujas árvores escalavam, brincando o tempo todo de folga. Depois, adultos, penaram e conseguiram algum avanço, melhoraram um bocadin. Ainda são dos bons tempos da boneca e do carrinho de madeira (céus, eu adoro esses carrinhos). Tecnologia é bobagem. Geralmente, nos adoram e fazem coisas para nós, de comprar sorvetes e chocolates a projetar brinquedos (eu também adoro isso).

Os pais já pioram. Viveram na ditadura. Jogavam bola bagarai quando crianças, ou brincavam de Barbie, ou iam para a rua brincar com os(as) amigos(as), já fugiram um tanto de casa. Eram mais desobedientes, mais rebeldes, mas se você tiver a idéia de sê-lo, te crucificam. Irônicos, também, não? Penaram todo o possível para estudar, se esforçaram para chegar onde chegaram e geralmente nos acham uns belos folgados. Altas chances de terem trabalhado a partir dos 15 anos de idade, adoram jogar isso na nossa cara quando pedimos algum dinheiro emprestado. Normal. Em São José, grandes chances de serem mineiros.

Enfim, nós. A ÚNICA coisa que todas as anteriores têm em comum é dizer que nós temos muita moleza, que não passamos por nada do que eles passaram. Se nós estudamos o dia todo como condenados, penamos o tempo inteiro, não temos tempo para trabalhar porque temos que entrar em uma boa faculdade (o que eles mesmos impõem) e ainda por cima temos que salvar o mundo (não só das cáries, mas dos arbustos também, e de todo o mal), somos muito vagabundos porque não ganhamos o próprio dinheiro, ficamos o dia inteiro na rua (muito provavelmente, na verdade, na escola para estudar), desaparecemos sem dar satisfação (apesar de irmos SEMPRE para o mesmo lugar). Ah, e se *pensarmos* em perder algum tempo trabalhando, se não o de férias, levamos sermões maiores que os do padre Vieira.

Eu tenho dó da próxima geração. Meus filhos vão sofrer.

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