O poder corrompe

Bem, este post surgiu por vários motivos. O primeiro desses é para atender a um desafio de uma estimada leitora, que acha que – fora o Murilo – nós escrevemos complicado demais. No meu caso, pelo menos, é irônico. Quem me conhece sabe o quão quebrada e rude é minha fala, com um nível de educação que faria um marinheiro corar. Talvez por isso eu acabe tentando fazer um texto um pouco mais rebuscado, mas vou tentar me controlar.

Outro foi o discurso do Cedê na cerimônia de encerramento da SiEM. Por mais que esse ano ele não tenha feito um discurso sobre poder e responsabilidade maior do que a clássica frase do maior filósofo do século XX, Ben Parker, o discurso ainda me deixou um pouco reflexivo sobre o uso do poder. Lendo o começo do Diplomacia, do Kissinger (excelente livro, se você tiver cuidado com relação à posição ideológica do autor), acabei um tanto inspirado pra falar sobre o assunto.

Após uma longa reflexão (uns 42 nanossegundos), cheguei a uma conclusão, não exatamente inédita, mas que não deixa de ser verdadeira: o poder corrompe tanto pessoas quanto governos. E simulações são um laboratório ideal pra essa tese. Já que nelas encontramos tantos futuros advogados, internacionalistas e afins, dá pra ver como se comportam aqueles que tomarão decisões e formarão opiniões da massa.

E nem falo de ver as pessoas dentro dos comitês, já que é natural que as pessoas demonstrem sua vendidagem, uso abusivo do poder e capacidade de atuação lá. Você pode descobrir muito mais sobre a humanidade em geral – em especial sobre modeleiros – fora de sessões, simplesmente interagindo com eles. (ja, mesmo um nerd como eu consegue interagir com pessoas em modelos).

Fora do comitê, as pessoas se revelam como de fato são; como pessoas que vão a esse tipo de evento em geral são mais sociáveis e expansivas que a média, é mais fácil enxergar algumas características. A arrogância é um exemplo. Muitos modeleiros, especialmente veteranos, se acham superiores àqueles que não participam de tais eventos, em particular aos nerds de exatas e a RPGistas.

Como gosto de modelos, vou apenas dizer algo que já foi dito não por mim, mas por Cedê Silva, em algum texto jogado no Modeleiro: modelos não são tão diferentes de RPGs quanto os modeleiros acham. Isso é visível no Senado Romano – que, apesar de muito legal, foi mais um exercício de compra, extorsão e mentiras do que um modelo normal.

Outro problema, mais comum e que tem mais a ver com a questão do poder em si, é que algumas pessoas acabam ficando obcecadas com simulações a um ponto em que isso compromete suas vidas. Para conseguir um bom desempenho – e, com ele, talvez status dentro do grupo de modeleiros veteranos -, algumas pessoas chantageiam, mentem e fazem toda sorte de atitudes condenáveis por algo que, por mais que seja divertido e didático, ainda é só um hobby.

Alguns leitores sabem do que estou falando. Para quem não sabe, a idéia é mostrar que a busca por “poder” – já que um nome respeitado em meio à comunidade modeleira pode trazer contatos, a possibilidade de dirigir um comitê em algum modelo, dentre outras vantagens – pode levar uma pessoa a agir de uma forma que não é muito legal.

Não estou falando de simulações por modeleiros serem sedentos por poder – apesar de esse tipo de evento atrair gente assim, tem muita gente boa em modelos, também -, mas sim por ser mais fácil exemplificar com elas. Poderia também falar de decisões arbitrárias de juízes agindo só porque podem fazer uma dada coisa, policiais achando que o fato de usar uma arma no serviço permite que eles façam o que quiserem, mas acabei de voltar de uma excelente SiEM, então minha cabeça ainda está na DPS.

Se isso acontece com pessoas, também acontece em corporações, governos e demais associações de pessoas com poder. O desejo de adquirir cada vez mais poder e a liberdade de ação que ele traz também acabam afetando empresas e até mesmo países. Um exemplo é a política externa dos Estados Unidos da América.

Logo após a sua independência, os Estados Unidos decidiram não tomar parte nos assuntos europeus, preferindo investir em seu próprio país e não se envolver em uma política de interesses tão distintos dos seus quanto era o pragmatismo do equilíbrio de poder (OFF: tá, a essa altura do campeonato eu já desisti de me controlar pra escrever).

Só que eles logo descobriram que não poderiam ficar completamente de fora do jogo das potências do Velho Continente. Inicialmente, eles adotaram uma posição de neutralidade, jogando tanto com a França quanto com a Inglaterra pra que nenhum desses os atrapalhassem na tomada da América. Isso enquanto defendiam que o sistema ético que valia para as pessoas também deveria se aplicar aos estados.

Conforme os territórios estadunidenses cresciam, maior ficava a tentação de começar a se meter em assuntos externos. Já em 1823, os Estados Unidos criaram a Doutrina Monroe, para que as potências européias não se metessem na América. Ao mesmo tempo, as idéias de “Destino Manifesto”, de que a missão dos EUA era levar a democracia para o mundo e de que só haveria paz entre nações democráticas se fortalecia.

Dessa forma, quando o Secretário de Estado Richard Olney disse, em 1895, “To-day, the United States is pratically sovereign on this continent, and its fiat is law upon the subjects to which it confines its interposition”, mais do que mostrar o domínio ianque sobre a América, ele revelou o quanto as necessidades do poder haviam distanciado a política externa de seu país daquela defendida em seus primórdios.

Depois, com o crescimento da indústria e mercado americanos, o engajamento ficou ainda maior. McKinley levou o seu país a uma guerra que acabou com o Império Espanhol, conquistando as Filipinas e tornando Cuba um satélite. Seu sucessor, Teddy Roosevelt – sim, aquele do Uma Noite no Museu -, propunha que os Estados Unidos eram essenciais para a manutenção do equilíbrio de poder, e por isso deveriam tomar um papel mais ativo.

Alguns anos depois, Wilson levou a população estadunidense para A guerra para acabar com todas as guerras, defendendo o ideal máximo da política americana – que a paz só ocorreria entre nações plenamente democráticos, com a auto-determinação dos povos. Por mais que sua maior idéia, a Liga das Nações, tenha sido barrada pelo Senado americano, o que selou o destino daquela, a participação dos Estados Unidos no cenário internacional passou a ser inevitável.

Todos sabem o que aconteceu depois – a Segunda Guerra Mundial, os mais de 40 anos de Guerra Fria, a desintegração da esfera soviética, o imperialismo americano e a formação de novos pólos de poder. No entanto, é sempre importante lembrar que o poder corrompe mesmo os ideais mais nobres; afinal, quem pode questionar a validade da democracia, que, para Churchill era “a pior forma de governo, salvo todas aquelas que foram tentadas ao longo dos tempos”?

Raciocínio semelhante deve ter passado pela mente de Bakunin na primeira Internacional, com suas proféticas palavras de que a Ditadura do Proletariado acabaria virando uma Ditadura sobre o Proletariado. Mas daí acabaria entrando em um território perigoso demais para ser discutido em meras linhas que originalmente pretendiam ser simples.

2 respostas para O poder corrompe

  1. Marianna disse:

    A republica romana sabe bem o q é sofrer com governos sedentos por poder…

    Roma sucumbiu aos interesses pessoais de certos senadores… ah, se o Caesar tivesse voz!

  2. Pois é, né?

    Agora, Inês é morta (mas não *ela*)

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