Culpa

Culpa deve ser um dos sentimentos mais naturais do homem. Não que algum sentimento não seja natural, óbvio. Mas felicidade, ódio e afins podem ser evitados e não sentidos. Culpa não.

Culpa não é dor nem arrependimento, veja bem. Como disse Drummond, a dor sente-se pelas coisas não feitas, não pelas coisas feitas. “Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram”. Arrependimento sente-se por qualquer coisa, feita ou não. A culpa é outra coisa, é sentir-se preso a um passado que não se pode mudar. É mais profunda e pesada que o arrependimento, além de unicamente oposta da dor em que só pode ser sentido pelas atitutes tomadas, nunca pelas sonhadas. Além disso, o arrependimento é geralmente motivado por algum revés causado pela atitude arrependida, enquanto a culpa não: tende a ser mais interna e pessoal, auto-estimulada.

A culpa, por isso mesmo, sente-se por qualquer coisa, é uma marca de imperfeição. Especialmente em uma geração que se vê forçada a ser “politicamente correta” (não que o seja, veja bem), culpa sente-se por tudo. Por não ter ajudado alguém a atravessar a rua; por não ter tido coragem de impôr-se para fazer o “certo”; por ter dito coisas tão horríveis, ou por falar coisas belas, mas sem fortuna aliada.

Alguém pode alegar que não sente culpa de nada, como alegam que não se arrependem por nada que fizeram. Mentiras. Todos sentem alguma pontada de culpa por centenas de coisas. Por mais insensível e imoral, alguma culpa um lado humano há de colocar na cabeça do indivíduo. E, nesses casos, quando culpas são raras, tendem a ser muito mais violentas.

Culpa não é um sentimento passivo, muito pelo contrário. A culpa enlouquece, a culpa cega. A culpa tende a ser violenta dentro de quem a tem. O ser humano detesta a percepção da imperfeição, por padrão*, e a culpa é justamente a percepção dessa imperfeição concretizada.

Não que não possa ser controlada, pelo contrário. Pode-se fingir esquecê-la, deixá-la guardada por anos; pode-se senti-la e fingi-la leve; camuflá-la junto a outros sentimentos; amenizá-la. Com o tempo (e muito tempo), pode-se até apagá-la.

Por sua natureza, faz-se um dos sentimentos mais brutais que há.

* força do hábito: por default

5 respostas para Culpa

  1. Bia Miscow disse:

    Acho que na maioria das vezes não se dá para apagar a culpa. Cedo ou tarde, ela vem à memória. Tenho quase certeza que quase todo o nosso sentimento de culpa vai se dar nessa fase de nossas vidas, quando nós sempre mantemos “um pé atrás” ou nos entregamos de corpo e alma (“se joga de cabeça!”- GIL) em alguma coisa, seja lá o que for.

    Apesar da dor da culpa, tem aquelas engraçadas. Por exemplo, nós mulheres queremos morrer quando não resistimos a uma doce ou um belo sorvete depois de ter ficado horas na academia ou fazendo qualquer outra coisa. Ô culpa! HAHAHA

    Nunca tinha lido um texto seu, Andrei. Gostei! =)

  2. Como disse Tom Hagen, pessoas podem perdoar umas as outras, mas elas nunca perdoam a si mesmas.

    A culpa pode consumir uma pessoa. Sempre nos perguntamos o que poderia ser diferente, como poderíamos ter agido melhor.

    Às vezes, ignorância é uma bênção.

    Ótimo texto, padawan.

  3. Jake Dust disse:

    A culpa não passa de uma falha para os não-niilistas acreditarem em sua própria importância, dando “biscoitos para o ego”.

    Negar instantaneamente a importância de haver uma culpa e um arrependimento torna fácil o perdão, porém não a confiança.

    Tento elaborar mais depois, talvez num post-resposta.

  4. Ludovico DeLarge disse:

    Culpa, ego e orgulho são coisas BASTANTE ligadas.

  5. The sweet smell of a great sorrow lies over the land.

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