Revoluções nos Assuntos Militares

Bem, após algum tempo fora de ação, parece que o Far Beyond Sanity está de volta. Considerando-se o presente estado dos autores, imagino que os posts serão escassos por algum tempo, mas depois as coisas devem voltar ao ritmo de outrora. E, para celebrar a ressureição desta zona, escreverei um pouco sobre Revoluções nos Assuntos Militares.

Criado pelos soviéticos, cujo estudo da “ciência militar” é muito mais rígido e formalista do que a tradição americano-européia, a idéia da existência de tais revoluções – ao contrário de muito da produção sobre assuntos militares do antigo Bloco Oriental – chegou ao Ocidente, onde encontrou tanto defensores como opositores.

O conceito de Revolução nos Assuntos Militares afirma a existência de avanços tecnológicos que alteram o meio militar de uma forma drástica, alterando a forma e a natureza dos conflitos; por sua vez, isso torna necessária a reorganização das forças armadas para se adaptar ao novo contexto.

Ao longo da História, uma série de avanços tecnológicos podem ser interpretados como Revoluções nos Assuntos Militares, pelo impacto que tiveram na forma como a guerra passou a ser conduzida. John Keegan, em Uma História da Guerra, dá o exemplo (mas sem usar o termo) da introdução da carruagem, que alterou drasticamente a forma de guerra na região do Crescente Fértil no segundo milênio antes de Cristo.

Um exemplo mais recente é a blitzkrieg, que, nos dias iniciais da Segunda Guerra, chocou o mundo com a velocidade vertiginosa de avanço da Wehrmacht contra a Polônia e a França. A combinação de tecnologias de comunicação (o rádio), carros de combate e apoio aéreo cerrado representou uma ruptura definitiva com o impasse das linhas de frente visto na Primeira Guerra Mundial, transformando a forma do combate em terra de forma tão drástica quanto os porta-aviões alteraram a guerra no mar.

O exemplo da Guerra-Relâmpago também é útil por mostrar alguns dos problemas da visão tecnicista do conceito original soviético. As tecnologias que tornaram o Exército alemão a máquina de guerra mais temida do mundo já existiam há algum tempo. Já na década de 20 o uso militar do rádio deixou de ser viável apenas em navios. O uso de aeronaves em guerra data da Primeira Guerra Mundial, e já estava bem consolidado quando da Guerra Civil Espanhola. E a pujança das unidades blindadas já havia sido demonstrada na Batalha de Khalkhin Gol, em que os tanques de Zhukov derrotaram algumas das melhores forças do exército japonês.

Com isso, torna-se evidente que não basta o surgimento de novas tecnologias, por mais revolucionárias que sejam, para ocorrer uma Revolução nos Assuntos Militares. De fato, não é necessário sequer um breakthrough tecnológico para transformar significativamente o panorama militar. O exemplo mais imediato da última afirmação é a Revolução Francesa.

Mesmo que as guerras da Revolução e as Guerras Napoleônicas tenham sido lutadas basicamente com os mesmos equipamentos utilizados durante o século XVIII, a ruptura com o que veio antes foi tão grande que foram necessários autores do nível de Jomini e Clausewitz para preencher o vazio conceitual de uma classe militar forçada a encarar uma série de mudanças de vulto. Primeiramente, temos a incorporação plena da Artilharia, a arma de origem de Bonaparte, ao exército; antes, ela era tida como um instrumento covarde pelos nobres que constituiam o oficialato dos exércitos europeus, e usada esporadicamente para sítios e outras formas de combate.

Porém, a transformação de maior impacto gerada pela Era Napoleônica no meio militar foi a difusão da conscrição, que já foi assunto de um dos meus primeiros posts. Enquanto antes os exércitos, na maior parte dos casos, eram relativamente pequenos e com tempos longos de serviço para aqueles que eram forçados – ou optavam por – a se alistar, o período napoleônico e pós-napoleônico (isto é, até as Guerras Mundiais) testemunhou o surgimento da Nação em Armas, já que a evolução nos transportes, o nacionalismo e a adoção de sistemas de reservas permitiam a um país tornar cada homem um soldado, o que, segundo Keegan, foi um dos fatores responsáveis pela carnificina da Guerra para Acabar com Todas as Guerras.

Essas e uma série de outras objeções possíveis ao conceito de Revoluções nos Assuntos Militares fazem com que muitos estudiosos (inclusive os citados na bibliografia – exceto, talvez, por Keegan) acabem questionando a própria existência dessas revoluções. Porém, o conceito é forte dentro das forças armadas americanas, além de ter sido incorporado à doutrina militar chinesa. Talvez seja precipitado afirmar que as revoluções não existam, mas é certo que tal conceito deve ser pensado e melhor estudado, não se pautando em visões puramente tecnocêntricas como a apresentada originalmente por Ogarkov quando da proposição original da idéia.

Bibliografia:

-Domício Proença Jr. et al., Guia de Estudos de Estratégia, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.

-John Keegan, Uma História da Guerra, São Paulo: Companhia das Letras: 2006

-Zhivan J. Alach, Slowing Military Change, Carlisle: U.S. Army War College, 2008.

2 respostas para Revoluções nos Assuntos Militares

  1. lucas lasota disse:

    Fe fato, ha um crescido interesse sobre esse assunto. Com o advento do constitucionalismo, as funcoes das Forcas Armadas sempre vieram positivadas nos textos constitucionais, de modo a dar legitimidade e balizar a legalidade desse tipo de atividade.
    Com efeito, tangindo o assunto ao exposto de forma interessante nesse blog, ha de se observar um artigo escrito por Luiz Monteiro postado em http://www.naval.com.br/blog. Vejamos:

    Com O uso da Força se tornou essencialmente ligado às necessidades do “domínio da informação” e das “armas inteligentes”. A partir de então, a configuração das FFAA assume novas características, como o aprimoramento da inteligência, versatilidade, mobilidade, agilidade e velocidade. Isto implica também na redução de suas dimensões em termos dos recursos humanos e materiais, dada a imperiosidade da qualificação profissional e a materialização dos equipamentos que servem como acessório ou plataforma de combate. As batalhas tendem a ser mais intensas e rápidas e as baixas tendem a ser menores, há uma reconfiguração do campo de batalha tornando-o transparente, redução dos níveis hierárquicos e maior agilização da capacidade de comando mais exigida em termos de agilidade. No aspecto político-estratégico, a RAM (rev. dos assuntos militares) é sinônimo também de modernização porque implica numa configuração técnica e organizacional capaz de atender as necessidades bélicas dos Estados-nação e projetá-las para o futuro, identificando as ameaças existentes e as possíveis, num cenário de crises políticas. Neste caso, ela contribui para a implementação de mudanças no nível estratégico, tático e operacional, mas não necessariamente na política de defesa e no uso da força como recurso dos Estados. Os interesses poderão ser os mesmos, como também os objetivos de manutenção da paz, de composição das alianças político-estratégicas etc, tal como ocorre com as maiores potências do planeta, como no caso dos Estados Unidos da América (EUA). Este país impõe o padrão que os demais países tendem a seguir.Dentro desta realidade, a missão das Forças Armadas envolve riscos e oportunidades. Elas devem cumprir a sua missão constitucional com ênfase nas missões de paz e na dissuasão, cooperando para a integração regional. O Poder Naval deve minimizar o uso da força, enfatizar a dissuasão e promover o desenvolvimento da consciência marítima, a capacidade de defesa, a capacitação da construção naval nacional, as operações conjuntas com os países do Mercosul, o engajamento nas forças de paz e alcançar o efetivo controle da ZEE.

    Dessa forma, as FFAA dos estados receberam funcoes que ainda nao se tinham visto. Outro ponto interessante a ser notado e a capacidade das FFAA fomentar o desenvolvimento tecnologico de uma nacao. Ora, sempre o topo da tecnologia e aplicado na guerra. E visivel isso quando parece que a realidade supera a ficcao. Armamento inteligente, materiais compostos, guerra centrada em redes, etc. Portanto, o desenvolvimento na area de defesa de um pais deve ser encarado como primordial, pois alavanca a industria local como se fosse um efeito colateral.

    Isso deve ser levado em conta quando se trata da revolucao dos assuntos militares, pois se torna uma funcao especifica DEDICADA das FFAA.

    Abracos.

  2. […] Texto originalmente escrito por mim, postado no Far Beyond Sanity em […]

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