Porta-aviões: Tipos e funções

Recentemente, a Forbes publicou um texto de John Arquilla, professor da U.S. Naval Postgraduate School, defendendo que os Estados Unidos parem de investir em Porta-Aviões, considerando-os uma perda de dinheiro. Não escreverei uma crítica do texto, ainda mais que gente mais inteligente que eu já o fez. Porém, a discussão sobre a função dos porta-aviões (Navios-Aeródromo, na nomenclatura brasileira) em si é válida, ainda mais para um país como o Brasil, com uma realidade bélica bem diferente da estadunidense. Faz sentido para o Brasil possuir um porta-aviões? Só podemos saber se soubermos qual a função de um.

“Porta-aviões” é um termo suficientemente amplo: pode ser usado para descrever qualquer embarcação que possua um convôo e possa operar aeronaves de asa fixa (o termo em língua inglesa, aircraft carrier, é ainda mais amplo, também englobando navios como os LHA – Landing Helicopter Assault). Justamente pelo conceito ser tão amplo, surgiram porta-aviões com diversos empregos.

Durante a Segunda Guerra, os ataques de submarinos contra os comboios, na célebre Batalha do Atlântico, levaram os ingleses e – pouco depois – os americanos a converter a partir de transportes ou construir pequenos porta-aviões para fornecer cobertura aérea aos comboios. Surgiram, então, os escort carriers, que também foram utilizados para auxiliar desembarques na campanha do Pacífico.

Uma evolução desse conceito resultou no surgimento do porta-aviões anti-submarino, que, como o nome indica, carrega um grupo aéreo orientado para a destruição de submarinos; para os navios mais recentes, isso significa basicamente helicópteros, mas também pode incluir aviões STOVL (short take-off, vertical landing) para defesa aérea pontual. Um exemplo é o HMS Invincible, que se destacou durante a Guerra das Malvinas.

Já os porta-aviões “verdadeiros” como os Nimitz americanos ou o Charles de Gaulle francês (ou mesmo o São Paulo) podem operar aeronaves de asa fixa que não são capazes de decolagem vertical. Isso permite que eles desempenhem uma gama de funções muito vasta: guerra anti-submarino, obtenção da superioridade aérea, reconhecimento, reabastecimento em vôo, ataques contra navios de superfície, dentre outras.

Dessa forma, já podemos divisar uma das funções mais importantes atribuídas aos porta-aviões em tempos de guerra: a proteção da navegação mercante. As Guerras Mundiais trouxeram a lição de que comboios são a forma mais segura de viagem para navios “civis” (apesar de fornecerem um alvo teoricamente mais atraente), e também mostraram a eficiência das aeronaves na função ASW (Anti-Submarine Warfare). Como o crescimento militar na última metade do século XX foi, na maior parte dos casos, orientado para um eventual choque entre os dois blocos militares da Guerra Fria, a missão de escolta foi a responsável por países como a Holanda terem decidido adquirir porta-aviões.

Porta-aviões “verdadeiros”, no entanto, possuem outros empregos possíveis. Por serem embarcações de tamanho considerável, podem carregar um grande número de aeronaves (Um porta-aviões da classe Nimitz pode levar 85 aeronaves; o São Paulo pode carregar 40), o que permite a condução de operações aéreas contra alvos que poderiam estar distantes das bases em terra disponível ao país. Um exemplo desse tipo de emprego é a campanha estadunidense no Afeganistão, em que o apoio aéreo foi fornecido por porta-aviões enquanto as forças da ISAF não possuíam o direito de usar bases de países da Ásia Central.

Porta-aviões de propulsão nuclear podem permanecer um bom tempo em patrulha, o que os torna uma boa força de dissuasão; um dos principais fatores que contribui para a China “tolerar” a independência taiwanesa é a presença da 7ª Frota estadunidense no Oceano Pacífico, que atualmente é um dos principais “alvos” dos planos de modernização e expansão da PLAN (People’s Liberation Army Navy). Assim, se Arquilla pode afirmar que o tipo de conflito que exija um porta-aviões não mais ocorre, um dos principais fatores é a superioridade estadunidense nesse campo.

Outra função, talvez a mais nobre – mas certamente não aquela para qual os porta-aviões foram construídos –, é o suporte a missões humanitárias. Por serem navios de grande porte, os navios-aeródromo podem operar em águas bem agitadas, o que os torna ideais para operações após uma tsunami, por exemplo. Por serem meios móveis, também podem ser usados como base de operações para transporte de suprimentos e apoio médico após outros tipos de catástrofes.

Em suma, porta-aviões desempenham principalmente duas tarefas: proteção do transporte marítimo em tempos de guerra e projeção de poder. Como o Brasil possui portos bem movimentados, a primeira missão é de interesse para a Marinha do Brasil. Já a segunda não condiz com a “tradição” brasileira de não-beligerância (descontando-se a Guerra do Paraguai e as guerras mundiais) nem com as missões ou o estado da Marinha brasileira, e além disso pode contribuir para uma corrida armamentista regional.

Outro fator a ser considerado para determinar a utilidade de um porta-aviões é o fator econômico. A manutenção de um porta-aviões é cara, assim como a de seu grupo aéreo; com o orçamento reduzido da Marinha do Brasil, apenas um dos A-4KU Skyhawk que deveria equipar o São Paulo está operacional. Além disso, um porta-aviões é apenas o núcleo do chamado Carrier Battlegroup(CVBG).

O CVBG é um grupo de navios que acompanha o porta-aviões, defendendo contra ataques. Uma vez que o convés de um navio-aeródromo é quase inteiramente dedicado ao pouso e decolagem de aeronaves, sobra pouco espaço para a instalação de armas; em geral, um porta-aviões possui apenas mísseis ar-ar e sistemas de defesa de ponto como o Phalanx. Como um porta-aviões custa algo na casa dos bilhões de dólares, seria insensato deixá-lo navegando sozinho por aí, então eles normalmente são escoltados por destróieres (ou contra-torpedeiros, na nomenclatura brasileira), fragatas – que desempenham a função ASW, já que submarinos são armas das mais eficientes para afundar um porta-aviões – e outros tipos de navios de escolta.

Essa é a doutrina tanto dos Estados Unidos quanto de vários dos demais países que operam porta-aviões – a URSS utilizava destróieres Sovremenny e outros navios para escoltar seus cruzadores convertidos em navios-aeródromo. No Brasil, contudo, a situação é diferente. Para conseguir manter o São Paulo em um estado teoricamente operacional, a Marinha do Brasil tem sacrificado o investimento em fragatas e contra-torpedeiros, já tendo aposentado alguns navios desses tipos sem substituí-los. Ou seja, mesmo que possuíssemos um porta-aviões operacional, ele não teria proteção o suficiente contra ataques inimigos.

Sendo assim, não é viável que a Marinha do Brasil opere um navio-aeródromo, mesmo um convencional como o São Paulo. Sem o dinheiro para as escoltas, um porta-aviões é um alvo fácil e atraente para um eventual inimigo. Sem um grupo aéreo operacional, um porta-aviões não tem muita utilidade. E, com o orçamento de fome atualmente destinado às Forças Armadas, possuir um navio para o qual não se possui um emprego definido é o equivalente a queimar dinheiro.

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Bibliografia:

-Scobell, Andrew & Kamphausen, Roy:Right-Sizing the People’s Liberation Army: Exploring the Contours of China’s Military, Carlisle: U.S. Army War College, September 2007.

Blog Poder Naval, Prosseguem as reformas no São Paulo, http://www.naval.com.br/blog/?p=1893

4 respostas para Porta-aviões: Tipos e funções

  1. Acredito que a razão da existência de FFAA, sae justifica, se um país como o Brasil, possua armas de destruição em massa do tipo balístico nuclear e artefatos químicos e biológicos, sem falar que hoje se acentua a preucupação com a segurança pública sobrepujando a SOBERANIA NACIONAL, VISTO NÃO SE TER COMO MANTE-LA, SEM EQUIPOS REFEREDOS PARA As FFAA e a guerra civil que vivemos. A palavra seria Nacionalismo.

  2. Musttaffa disse:

    Meu amigo! 95% do comércio brasileiro é feito pelo mar, se as rotas comérciais fossem bloqueadas o país entraria em colápso financeiro em menos de 3 meses levando a ruina total todo parque industrial do Brasil, portanto não podemos abrir mão de operar com um porta-aviões apemas, mas sim com no mínimo dois e dispor de uma grande Força Naval para manter o Brasil sempre cescendo no cenário internacinal.

  3. Musttaffa disse:

    Chega até ser inconclusivo seu raciocinio

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