Globometonímias

Falta de tempo, globalização, informação demais, etc. “Era da informação”. OK. Só não entendo em qual parte disso entra o fato de meio mundo resolver, de repente, que dois parágrafos podem explicar um conflito de décadas, que cinco horas de teatro resumem uma das obras primas da literatura brasileira, que duas páginas explicam o que alguns estudam meses para entender e aprender de fato.

Explico: a mídia, em geral, tende a resumir assuntos de forma quase absurda e, para isso, obviamente, faz uma simplificação enorme. Infográficos que explicam o problema mundial do petróleo em um retângulo que ocupa 1/3 de uma folha A4, uma tabela com o histórico do conflito entre Israel e Palestina com metade de uma página, uma imagem bonita e quatro caixas de texto ínfimas explicando todo o funcionamento de um avião. Quem pede por toda essa condensação, claro, é o público. Por falta de tempo ou simplesmente preguiça: no Brasil, principalmente, quem agüenta ler quatro ou cinco páginas apenas para entender os últimos dois ou três anos de Israel, mesmo assim em um panorama geral? E ler D. Casmurro, para (tentar) compreender por si a história?

O problema é que isso faz com que um enorme número de pessoas fique satisfeito com um subaprendizado. É quase um anti-conhecimento: muitos dão-se por satisfeitos simplesmente com aquela raspa de informação e se sentem completamente prontos para uma discussão calorosa com um professor de relações internacionais, um piloto profissional, um professor de História da Literatura (estou focando nesses exemplos, mas são tantos…); claro que, mesmo sendo quase nada, já é algo. Mas esse subaprendizado como todo o aprendizado disponível para essas classes? Livros e sites existem, claro. Mas é o tipo de pessoa que não se interessa por conhecimento buscado, pelo menos a princípio. O conhecimento tem que ser dado de mão beijada. Nós ainda temos o problema do acesso real a essa informação.

Com a credibilidade de certos veículos (cof, preciso falar?), ainda por cima… Essa informação ganha mais status como absoluta e completa. Se a Veja disse, ‘tá dito, é todo o necessário para determinado assunto. Quando houve o acidente com o avião da TAM, repentinamente qualquer um poderia pegar um avião e sair pilotando: todos sabiam o que era um reverso, o que devia ter sido feito, como funcionava cada parte da cabine… Well, sort of. Claro que ninguém falou que um piloto daquele precisa de n+1 horas de vôo e sabe de cor e salteado como pilotar. Mas, de repente, não mais que de repente…

“Capitu” também. Achei bom, a propósito, mas não substitui de jeito nenhum a leitura do livro. Muita gente achou bom por ser “novela da Globo” (o que não era). Outros simplesmente acharam um romance bobinho, do tipo divertido que passa em comédias românticas e filmes da sessão da tarde. A micro-série mostrou muito mais do que isso, mas a leitura contém detalhes que seriam impossíveis de mostrarem-se ali, em tão pouco tempo. De novo, muitos saem achando que aquilo é tudo.

Até onde as informações enlatadas e condensadas são boas, não sei. São mais manipuláveis, alienantes e podem ser muito imprecisas. São mais informação do que nada? Claro… Mas valem a pena?

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