O Mundo Tropical contra a produção leiteira

A indústria do agronegócio brasileiro é uma das mais promissoras em todo o país, com capacidade de crescimento e implantação de novas tecnologias, para aumento e melhora da produção. O PIB de nosso país tem uma considerável contribuição do setor agropecuário. Tanto a produção agrícola como a pecuária, com destaque para a criação bovina de forma extensiva, tem papel fundamental para a subsistência de inúmeras famílias em nosso país. De acordo com dados da Embrapa de 2007, o Brasil é o sexto maior produtor de leite no mundo, com 4,5% da produção mundial, atrás de Estados Unidos, Índia, China, Rússia e Alemanha. Além disso, é um dos maiores produtores de arroz, soja e o maior exportador de carne bovina, muito a frente de qualquer outro país.

Em 2008, a produção de leite nacional ficou em torno de 19,6 bilhões de litros, sendo que, apenas no primeiro semestre, mais de 220 milhões de litros foram destinados a exportação. A produção, entretanto, não se apresenta uniforme durante todos os períodos do ano, apresentando consideráveis variações durante as estações do ano. No Brasil, o período entre junho e setembro apresenta-se como o mais produtivo para o mercado leiteiro, já que as médias de produção de algumas raças chega a aumentar 35%. Em países do Hemisfério Norte, entretanto, a variação ocorrida é menos brusca.

Se analisarmos a porcentagem média de concepção por cada mês do ano, também temos valores mais altos nos meses de mais frio e menor umidade do ano. No verão, a taxas chegam a cair quase pela metade, em situações mais extremas (Tatcher, 1984). Aliado a isso, as taxas de perdas gestacionais crescem 10% no período quente. Além da temperatura e da umidade, outros fatores como a radiação solar, o grau de nebulosidade, os ventos e a pluviosidade também exercem influência na produção (Nãas, 1989). Financeiramente, portanto, os meses mais quentes e úmidos do ano representam prejuízos não somente para a produção (curto prazo), mas também para os índices de reprodução (longo prazo).

Os animais bovinos são homeotermos, ou seja, mantém a temperatura corporal (assim como seres humanos); temperatura esta que gira em torno de 39ºC, e não 36,5, como em humanos. Para manter a temperatura, é necessário dissipar calor por diversas maneiras, como respiração, transpiração, irradiação, condução e convecção. Caso o animal não consiga dissipar o calor necessário para sua termorregulação, tem-se uma situação de stress térmico (West, 1999). Todo animal possui uma temperatura ótima para funcionamento de seu organismo, a chamada Zona de Conforto Térmico (ZCT). Para as raças bovinas européias (Bos taurus), bastante comuns no Brasil, a temperatura fica entre 0 e 16ºC. Já para raças zebuínas (Bos indicus), tipicamente indianas, ZCT fica entre 10 e 27ºC. (Pereira, 2005). Observa-se, portanto, que a zona de conforto para os animais em clima tropical está um tanto distante das temperaturas registradas.

Matematicamente falando, existe um índice para calcular os efeitos do clima sobre as vacas em produção. O chamado Índice de Tolerância ao Calor (ITC) (Baccari Jr., 1986) calcula a resistência dos animais diante condições climáticas mais quentes do que a média, variando para cada raça. O Brasil, como um país predominantemente tropical, com grande parte do território apresentando médias de temperatura superiores a 23ºC, sofre bastante com o efeito do clima. No verão, as médias de temperatura passam facilmente de 25ºC, chegando a atingir 27ºC, em regiões mais quentes. Calculando no ITC, no verão, o índice aponta situações de alerta, acima do ponto crítico. Já no inverno, as temperaturas mais amenas, a menor umidade e níveis mais baixos de radiação apontam situações de baixo stress térmico, raramente chegando a níveis críticos (Du Preez, 1990).

O chamado stress térmico gera uma série de reações involuntárias que acabam prejudicando o bom funcionamento do organismo do animal. Fora da ZCT, ocorre um aumento da circulação nas zonas periféricas, vaso-dilatação, aumento das frequências cardíaca e respiratória, além de maior sudação. Tudo isso acaba gerando uma queda metabólica, redução do consumo de alimentos e aumento no consumo de água (Armstrong, 2004).

Um dos principais efeitos do stress térmico no metabolismo bovino é a desregulação hormonal. Submetidas a situações climáticas fora do adequado, as vacas sofrem uma diminuição no nível de Estradiol e um aumento no nível de Progesterona (Guzeloglu, 2001). A pequena mudança sofrida acaba sendo suficiente para que haja uma desregulação das condições ótimas para concepção.

Por fim, para amenizar os efeitos do stress térmico (e consequentemente perdas financeiras), há diversas alternativas, muitas delas simples, que podem gerar uma sensível melhora. A construção de instalações com maior disponibilidade de sombra e boa ventilação (em alguns casos, o uso de ventiladores especiais é adequado) pode representar um investimento alto, porém com resultados garantidos e comprovados. Uma pequena diminuição no stress térmico pode ser indicador de grandes diferenças no aspecto econômico.

Referências Bibliográficas

ARAUJO, A.A. Efeitos do Estresse Térmico Sobre a Reprodução de Fêmeas Bovinas. FAVET – UECE

ARMSTRONG, D.V. Heat stress interaction with shade and cooling. Journal of Dairy Science, v.77, p.2044-2050, 1994.

BACCARI Jr., F. Métodos e técnicas de avaliação da adaptabilidade dos animais nos trópicos. Fundação Cargill, In: XI Semana de Zootecnia, Anais, Pirassununga/SP, 1986, p.53-64.

DU PREEZ, J.H.; GIESECKE, W.H.; HATTING, P.J. Heat stress in dairy cattle under Southern African conditions. II. Identifications of areas of potential heat stress in dairy heat stress summer by means of observed true and predicted temperature- humidity index mean values, Journal of Veterinary Research, v.57, n.3, p.183-187, 1990b.

NÃÃS, I.A. Princípios de conforto térmico na produção animal. São Paulo:Ícone, 1989. 183p.

WEST, J.W. Nutritional strategies for managing the heat-stressed dairy cow. Journal of Dairy Science, v.82, p.21-35, supplement 2, 1999.

Led Zeppelin – Black Dog

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