O Mundo Tropical contra a produção leiteira

18 janeiro, 2009

A indústria do agronegócio brasileiro é uma das mais promissoras em todo o país, com capacidade de crescimento e implantação de novas tecnologias, para aumento e melhora da produção. O PIB de nosso país tem uma considerável contribuição do setor agropecuário. Tanto a produção agrícola como a pecuária, com destaque para a criação bovina de forma extensiva, tem papel fundamental para a subsistência de inúmeras famílias em nosso país. De acordo com dados da Embrapa de 2007, o Brasil é o sexto maior produtor de leite no mundo, com 4,5% da produção mundial, atrás de Estados Unidos, Índia, China, Rússia e Alemanha. Além disso, é um dos maiores produtores de arroz, soja e o maior exportador de carne bovina, muito a frente de qualquer outro país.

Em 2008, a produção de leite nacional ficou em torno de 19,6 bilhões de litros, sendo que, apenas no primeiro semestre, mais de 220 milhões de litros foram destinados a exportação. A produção, entretanto, não se apresenta uniforme durante todos os períodos do ano, apresentando consideráveis variações durante as estações do ano. No Brasil, o período entre junho e setembro apresenta-se como o mais produtivo para o mercado leiteiro, já que as médias de produção de algumas raças chega a aumentar 35%. Em países do Hemisfério Norte, entretanto, a variação ocorrida é menos brusca.

Se analisarmos a porcentagem média de concepção por cada mês do ano, também temos valores mais altos nos meses de mais frio e menor umidade do ano. No verão, a taxas chegam a cair quase pela metade, em situações mais extremas (Tatcher, 1984). Aliado a isso, as taxas de perdas gestacionais crescem 10% no período quente. Além da temperatura e da umidade, outros fatores como a radiação solar, o grau de nebulosidade, os ventos e a pluviosidade também exercem influência na produção (Nãas, 1989). Financeiramente, portanto, os meses mais quentes e úmidos do ano representam prejuízos não somente para a produção (curto prazo), mas também para os índices de reprodução (longo prazo).

Os animais bovinos são homeotermos, ou seja, mantém a temperatura corporal (assim como seres humanos); temperatura esta que gira em torno de 39ºC, e não 36,5, como em humanos. Para manter a temperatura, é necessário dissipar calor por diversas maneiras, como respiração, transpiração, irradiação, condução e convecção. Caso o animal não consiga dissipar o calor necessário para sua termorregulação, tem-se uma situação de stress térmico (West, 1999). Todo animal possui uma temperatura ótima para funcionamento de seu organismo, a chamada Zona de Conforto Térmico (ZCT). Para as raças bovinas européias (Bos taurus), bastante comuns no Brasil, a temperatura fica entre 0 e 16ºC. Já para raças zebuínas (Bos indicus), tipicamente indianas, ZCT fica entre 10 e 27ºC. (Pereira, 2005). Observa-se, portanto, que a zona de conforto para os animais em clima tropical está um tanto distante das temperaturas registradas.

Matematicamente falando, existe um índice para calcular os efeitos do clima sobre as vacas em produção. O chamado Índice de Tolerância ao Calor (ITC) (Baccari Jr., 1986) calcula a resistência dos animais diante condições climáticas mais quentes do que a média, variando para cada raça. O Brasil, como um país predominantemente tropical, com grande parte do território apresentando médias de temperatura superiores a 23ºC, sofre bastante com o efeito do clima. No verão, as médias de temperatura passam facilmente de 25ºC, chegando a atingir 27ºC, em regiões mais quentes. Calculando no ITC, no verão, o índice aponta situações de alerta, acima do ponto crítico. Já no inverno, as temperaturas mais amenas, a menor umidade e níveis mais baixos de radiação apontam situações de baixo stress térmico, raramente chegando a níveis críticos (Du Preez, 1990).

O chamado stress térmico gera uma série de reações involuntárias que acabam prejudicando o bom funcionamento do organismo do animal. Fora da ZCT, ocorre um aumento da circulação nas zonas periféricas, vaso-dilatação, aumento das frequências cardíaca e respiratória, além de maior sudação. Tudo isso acaba gerando uma queda metabólica, redução do consumo de alimentos e aumento no consumo de água (Armstrong, 2004).

Um dos principais efeitos do stress térmico no metabolismo bovino é a desregulação hormonal. Submetidas a situações climáticas fora do adequado, as vacas sofrem uma diminuição no nível de Estradiol e um aumento no nível de Progesterona (Guzeloglu, 2001). A pequena mudança sofrida acaba sendo suficiente para que haja uma desregulação das condições ótimas para concepção.

Por fim, para amenizar os efeitos do stress térmico (e consequentemente perdas financeiras), há diversas alternativas, muitas delas simples, que podem gerar uma sensível melhora. A construção de instalações com maior disponibilidade de sombra e boa ventilação (em alguns casos, o uso de ventiladores especiais é adequado) pode representar um investimento alto, porém com resultados garantidos e comprovados. Uma pequena diminuição no stress térmico pode ser indicador de grandes diferenças no aspecto econômico.

Referências Bibliográficas

ARAUJO, A.A. Efeitos do Estresse Térmico Sobre a Reprodução de Fêmeas Bovinas. FAVET – UECE

ARMSTRONG, D.V. Heat stress interaction with shade and cooling. Journal of Dairy Science, v.77, p.2044-2050, 1994.

BACCARI Jr., F. Métodos e técnicas de avaliação da adaptabilidade dos animais nos trópicos. Fundação Cargill, In: XI Semana de Zootecnia, Anais, Pirassununga/SP, 1986, p.53-64.

DU PREEZ, J.H.; GIESECKE, W.H.; HATTING, P.J. Heat stress in dairy cattle under Southern African conditions. II. Identifications of areas of potential heat stress in dairy heat stress summer by means of observed true and predicted temperature- humidity index mean values, Journal of Veterinary Research, v.57, n.3, p.183-187, 1990b.

NÃÃS, I.A. Princípios de conforto térmico na produção animal. São Paulo:Ícone, 1989. 183p.

WEST, J.W. Nutritional strategies for managing the heat-stressed dairy cow. Journal of Dairy Science, v.82, p.21-35, supplement 2, 1999.

Led Zeppelin – Black Dog


Revelações

7 janeiro, 2009
Auto-explicativa

Auto-explicativa

O Blog vai, volta, e os autores se revelam.


Televisão antes do café

6 janeiro, 2009

Desisto. Desde quando propagandas merecedoras de “enl4rg3 your p3nn1s” passam na TV, antes das 8 da madrugada? Daquelas que começam com “53% dos homens têm problemas de ejaculação precoce e outros [número acima de 50, acho]% têm problemas de impotência”?

Desisto. Quero ir embora daqui, aluguem o meu pedaço de Brasil.


A Arte do Tédio e da Cópia

4 janeiro, 2009

Homenagens póstumas podem ser feitas até pelos mais desqualificados.

Mural das citações.

Mural das citações.


XKCDish

30 dezembro, 2008

XKCDish

Claro, inspirado por xkcd e mais xkcd.


De Sentientibus

28 novembro, 2008

Há algum tempo, escrevi um post sobre o amor. Tentei fazer uma análise o mais objetiva possível desse tema, mas, fazendo uma análise a posteriori, creio que as coisas não sejam tão simples como originalmente eu tenha colocado.

Tratamos sentimentos como coisas triviais, onipresentes e quase tão necessárias como respirar. É esperado que as pessoas amem, cobicem, se empolguem, sonhem, tanto que a “incapacidade” de interação com os outros é tratada como um distúrbio psicológico. Por estarmos tão habituados com eles, nunca paramos para pensar no quão “anti-naturais” sentimentos como o amor ou o orgulho podem ser.

O ser humano possui alguns poucos impulsos naturais: o desejo sexual, o apego à prole, os mecanismos de auto-preservação. São coisas simples, que só são violados em situações extremas – como é evidente pela condenação quase que universal do suicídio em tradições, códigos legais e religiosos. Carecem das nuances e sutilezas que mesmo um sentimento bem tosco como o ódio possui.

Que dizer então do amor, sentimento notadamente complexo que mentes muito superiores à minha falharam em compreender? Amar outro ser exige, em primeiro lugar, amor-próprio; não é de todo inválida aquela “Sorte do Dia” do orkut que diz que “o primeiro e último amor é o amor-próprio”. Depois, ele exige uma capacidade de confiar nas pessoas; há uma citação ótima de The Sandman para isso, mas o Alessandro já usou em um post “recente”.

Então, quando se perde a capacidade de confiar em outrem, a pessoa não mais consegue amar. Em alguns casos, mantém-se a necessidade por sexo, mas não mais há envolvimento afetivo; quando há a manutenção de vínculos, é por questões sociais ou, como é o caso em muitos casamentos frustrados, pelos filhos.

Uma análise semelhante é possível para orgulho, ódio e uma série de outros sentimentos. Aquilo que tomamos por comum na verdade constitui um feito tão improvável quanto o “Milagre Termodinâmico” da transformação espontânea de oxigênio em ouro e, por isso mesmo, possui um valor inestimável.

Boa parte do post ainda não está feita, mas não quebrei em partes porque nunca termino minhas séries de textos. Então, depois eu volto e edito isso aqui.


Amigos

20 julho, 2008

Meu caro amigo, me perdoe por favor
Se não lhe faço uma visita…

Por mim, existem três coisas sem as quais não dá para ser feliz de jeito nenhum: um estômago, um cérebro e bons amigos. Até o fígado dá pra dispensar, vai (vão discordar de mim até a morte), mas esses três, de jeito nenhum. O estômago e o cérebro por razões óbvias.

Os amigos, simplesmente, por serem a única coisa que nos garante que estamos num lugar que vale a pena ou, na pior das hipóteses, que ainda é suportável.

Isso porque amigos vão e vêm, passam, voltam, continuam, mas sempre temos algum. Alguém que nos agüenta, alguém com quem podemos desabafar.

Alguém que nos faz sentir alguém, contra tudo o que digam os outros. Alguém com quem conversar a qualquer momento (ou apenas que, nos momentos disponíveis, fazem cada palavra valer por qualquer eternidade que vivamos).

Amigos nos fazem, por muitas vezes, refletir. Quando têm algum problema, quando nos pedem algo em troca de tudo aquilo que cobramos tantas vezes. Quando choram escondidos, quando nos pedem segredo, quando nos pedem alguma honestidade e sinceridade. Amigos, ao contrário do que dizem muitos textos, não são apenas apoio. Também nos cobram, também buscam algo em troca da amizade.

Bons amigos não aparecem do nada, como (… Como… Droga. Ah, já sei) a notícia da morte da Dercy. Custam um mínimo de cara-de-pau, um tanto de simpatia e interesses em comum e, por vezes, por que não, muita e muita sorte e tentativas. De ambos.

Amigos não são estáticos, como já disse. Alguns vão para que entrem outros. Alguns, de amigos-conhecidos viram ótimos amigos. Outros, o contrário ou, na pior das hipóteses, viram cunhados e vão assaltar a sua geladeira nos fins de semana. Algumas amigas (colocar no masculino ia dar idéia de ser texto do russo) ainda se tornam algo mais: namoradas, esposas. Os melhores relacionamentos são amizades, ainda assim. Não se pode namorar alguém que não se conheça muito bem, que não saiba agir como amiga (again) nas horas certas. Torna-se algo frágil e, muitas vezes, até desagradável, o relacionamento.

Amigos também brigam, se desentendem. Por qualquer razão, aliás. Por qualquer desacordo, podem brigar, mesmo os melhores amigos. Mas bons amigos sabem quando parar ou quando ceder. E, se não souberem, ao menos sabem olhar nos olhos e pedirem desculpas. Em último caso, sabem mandar indiretamente o recado.

Amigos também não trazem apenas coisas boas ou prazerosas. Eles nos decepcionam, nos desapontam. Sem querer, provavelmente. Mas amigos também são humanos: também sentem raiva e podem muito bem descarregá-la no primeiro alvo disponível. Cabe a nós apenas entender. É o que faria um amigo.

Passem bem o dia do amigo, pessoas.