SIGINT e COMSEC – Protegendo as comunicações

14 março, 2009

SIGINT, abreviatura de signals intelligence, é o termo inglês usado para descrever a atividade de coleta de informações ou inteligência através da interceptação de sinais de comunicações entre pessoas ou máquinas. [Wikipédia]

Seguindo os moldes do artigo sobre OSINT, uma pequena introdução sobre outra modalidade de inteligência, a SIGINT. Para os que não conhecem o conceito de inteligência, é recomendada a leitura do artigo citado acima.

Um pequeno histórico

Talvez um dos exemplos mais famosos de SIGINT seja o Projeto Venona, mesmo tendo sido um segredo completo. Antes de sua exposição no livro Spycatcher, do ex-oficial de inteligência britânico Peter Wright, sua existência era conhecida apenas por um grupo extremamente minoritário, sendo que nem que o presidente americano Harry Truman (1945–1953) sabia diretamente o que estava acontecendo. Sua importância não foi pequena: Foi ele que possibilitou a descoberta de um dos membos do grupo Cambridge Five[1], Donald Maclean.

Um outro caso menos conhecido ocorreu durante a Guerra das Falklands/Malvinas, com os esforços conjuntos britânicos e americanos. Segundo o diário de um oficial britânico no submarino nuclear HMS Conqueror, a interceptação das comunicações argentinas foi “impressionante, de fato e sem ela nós nunca poderíamos ter feito o que fizemos. Nós conseguimos interceptar boa parte, se não foram todas as transmissões do inimigo.” Segundo Ed Ketter, o valor dessas interceptações era tão alto que compensava mais não bombardear o quartel-general argentino para não perder essa fonte.

COMSEC

COMSEC, ou communications security (segurança de comunicações) são as medidas tomadas para garantir a autenticidade das comunicações e evitar que elas sejam disponibilizadas para pessoas não-autorizadas. É visível a necessidade de COMSEC não só em meios militares, como também nas relações interpessoais, como mostra o princípio constitucional da inviolabilidade do sigilo postal, embora com salvaguardas para proteger o Estado:

XII – é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal; [Constituição da República Federativa do Brasil]

O desenvolvimento da idéia de COMSEC começou realmente a partir da Segunda Guerra Mundial, quando foi descoberto em um laboratório da companhia americana Bell, quando um pesquisador notou que cada vez que a máquina de teletipo (um equipamento parecido com uma máquina de escrever, mas com funcionamento eletroeletrônico) era usada, apareciam interferências em um osciloscópio distante. O real problema era o fato de que esta máquina era utilizada para criptografar mensagens, e somente com estas interferências era possível interceptar todo o texto da mensagem sem criptografia.

A partir desta data, uma séria pesquisa para descobrir os motivos desta interceptação e como seria possível bloqueá-la. Em cerca de seis meses, a Bell determinou três principais precauções:

  1. Blindagem eletromagnética, para evitar irradiações;
  2. Filtragem de sinais transmitidos;
  3. Mascarar os sinais.

Porém, as medidas necessárias para proteção praticamente inviabilizavam o uso dos teletipos em campo, o que levou a medidas mais diretas, como controlar e vigiar a zona a cerca de 30 metros dos aparelhos.

Após a guerra, boa parte dessa pesquisa foi abandonada e perdida, só voltando na década de 50, dessa vez sob as rédeas da NSA (National Security Agency, Agência de Segurança Nacional), agência americana especialista em SIGINT.

Hoje em dia, COMSEC é uma preocupação exclusivamente militar, mesmo tendo profundas implicações na vida privada. Segundo Martin Vuagnoux e Sylvain Pasini, dois pesquisadores da Escola Politécnica Federal de Lausanne, é possível capturar todos os dados digitados em teclados normais de computador com equipamento específico. Um maior desenvolvimento e redução de custos nesta área traz consequências fortíssimas, como a possibilidade de capturar senhas em caixas eletrônicos. Desconsiderar estes fatores hoje em dia é simplesmente negar toda a idéia de segurança e privacidade.

[1]Cambridge Five foi um grupo de espiões soviéticos no Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial e o início da década de 50.

Bibliografia e referências:
Markus G. Kuhn e Ross J. Anderson: Soft Tempest: Hidden Data Transmission Using Electromagnetic Emanations
NSA: A History of U.S. Communications Security (Volumes I and II); the David G. Boak Lectures, National Security Agency, 1973
NSA: TEMPEST: A Signal Problem

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OSINT – Inteligência Aberta

20 dezembro, 2008

OSINT, sigla para Open source intelligence, é o termo usado, principalmente em inglês, para descrever a inteligência, no sentido de informações, como em serviço de inteligência, obtida através dados disponíveis para o público em geral, como jornais, revistas científicas e emissões de TV. [Wikipédia]

Uma introdução curta, mas para um leigo logo surge a dúvida: “O que é inteligência?“. Este pequeno artigo tem a intenção de introduzir o conceito de inteligência e de OSINT de uma maneira leve e didática para pessoas que não possuam experiência na área.

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Wargaming – Inventando novos jogos de guerra

22 novembro, 2008

(Um retorno, agora em terras relativamente mais européias.)

Alguns dias atrás peguei meu novo brinquedo para adultos, o Harpoon 4.1 – High Tide, um wargame naval fantástico e muito famoso em seu meio, que é inegavelmente limitado. Uma curta descrição do jogo, feita pelo Almirante Sir John Woodward, é “… Harpoon 4 permite um gosto surpreendentemente realista de comando marítimo em guerra – com a vantagem de que você não terá que nadar pela sua vida se cometer um erro.”.

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Revoluções nos Assuntos Militares

22 novembro, 2008

Bem, após algum tempo fora de ação, parece que o Far Beyond Sanity está de volta. Considerando-se o presente estado dos autores, imagino que os posts serão escassos por algum tempo, mas depois as coisas devem voltar ao ritmo de outrora. E, para celebrar a ressureição desta zona, escreverei um pouco sobre Revoluções nos Assuntos Militares.

Criado pelos soviéticos, cujo estudo da “ciência militar” é muito mais rígido e formalista do que a tradição americano-européia, a idéia da existência de tais revoluções – ao contrário de muito da produção sobre assuntos militares do antigo Bloco Oriental – chegou ao Ocidente, onde encontrou tanto defensores como opositores.

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O poder corrompe

12 julho, 2008

Bem, este post surgiu por vários motivos. O primeiro desses é para atender a um desafio de uma estimada leitora, que acha que – fora o Murilo – nós escrevemos complicado demais. No meu caso, pelo menos, é irônico. Quem me conhece sabe o quão quebrada e rude é minha fala, com um nível de educação que faria um marinheiro corar. Talvez por isso eu acabe tentando fazer um texto um pouco mais rebuscado, mas vou tentar me controlar.

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Uma visão racional da Guerra: A abordagem de Clausewitz

11 julho, 2008

Há algum tempo, tratei sobre a modelagem jominiana da guerra, uma primeira tentativa de descrever esta por meio de princípios universais. O trabalho de Jomini nesse sentido iniciou-se já em 1804, o que lhe rendeu a atenção do Marechal Ney e mesmo do próprio Bonaparte. No entanto, antes que sua magnum opus, o Précis de l’Art de la Guerre, fosse publicada, surgiu uma outra teoria da guerra, que, ao contrário da visão conciliadora de Jomini, era vastamente diferente do senso formado. Seu autor era o general prussiano Carl von Clausewitz.

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Por que Napoleão perdeu? Parte 2

30 maio, 2008

Alguns escritores defendem que Napoleão nunca conseguiria se manter no poder, mesmo que houvesse vencido naquele campo belga que marcou o fim de uma época. Por mais que a história não seja uma ciência especulativa, isto é um post de blog, então posso afirmar que talvez ele conseguisse se manter no poder, mas precisaria de vitórias tão épicas quanto as que criaram a sua fama.

Triunfos de tal porte, apesar de difíceis, ainda eram possíveis. Por mais que Napoleão e seus marechais – especialmente o indeciso Grouchy e o bravo Ney – estivessem longe de seu ápice, muitos dos mais hábeis dentre eles inclusive estando mortos (como Masséna e Poniatowski), e Davout, possivelmente o melhor de todos, estivesse em Paris gerenciando o esforço de guerra, ainda assim o lado francês estava melhor comandado que seus oponentes.

Sir Arthur Wellesley, o lendário Duque de Wellington, era um comandante muito capaz, como demonstrado na Índia e na Guerra Peninsular. Os prussianos de Blücher melhoraram muito desde seu pífio desempenho na Guerra da Quarta Coalizão – apesar de ainda estarem muito distantes dos tempos áureos de Frederico, o Grande. Mas nenhum deles era páreo para le petit Caporal.

Não existe “se” em história. Mas é difícil não pensar no que teria acontecido se Napoleão conseguisse separar seus oponentes, enfrentá-los em termos ditados por ele. Mesmo na batalha de Waterloo, o que teria acontecido se Blücher não houvesse chegado? As destroçadas tropas anglo-holandesas de Wellington teriam conseguido manter sua posição?

Veremos no post final da série.